Depois de cinco dias de buscas em vão, neste fim-de-semana foram encontrados 17 corpos de vítimas da tragédia do voo 447 da Air France. Dezenas de componentes do avião foram também recuperadas.
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O tenente-coronel Henry Munhoz, porta-voz das Forças Armadas Brasileiras (FAB), responsáveis pelas buscas do Airbus A330 que desapareceu na última segunda-feira, anunciou no domingo que “foi recolhido um total de 17 corpos e recuperadas dezenas de componentes estruturais do avião”.
O porta-voz informou que nove dos cadáveres – que já antes tinha afirmado serem, sem qualquer dúvida, de vítimas do AF-447 – foram resgatados pela fragata brasileira Constituição. Outros oito foram recolhidos pela fragata francesa “Ventôse”.
Sabe-se que os primeiros dois corpos, encontrados no sábado, eram do sexo masculino. Os corpos que seguem na "Ventôse" são de quatro homens e quatro mulheres.
Munhoz disse que “as peças encontradas são importantes, porque se confirma que são do Airbus A330 desaparecido”. Algumas, têm o logótipo da Air France (como parte da asa na fotografia acima).
Além disso, o porta-voz indicou que existem centenas de objectos” a flutuar no oceano, como assentos e máscaras de oxigénio que deverão pertencer ao avião.
A maioria dos corpos e destroços foi recolhida num local a cerca de 1150 km de Recife, no noroeste brasileiro. É em Recife, aliás, que se encontram as equipas de médicos legistas que vão preparar e identificar os corpos, com o apoio da Polícia Civil de Pernambuco e da Polícia Federal brasileira.
No sábado, as autoridades brasileiras recolheram cabelos, sangue e saliva de familiares dos passageiros do voo AF-447, para identificar as vítimas através de análises de ADN.
Os corpos só chegam na terça-feira ao arquipélago Fernando de Noronha, onde está montada uma base de operações para as equipas de busca e resgate, maioritariamente compostas pela Força Aérea e pela Marinha brasileiras.
No total, são 14 aviões no terreno (dois destes franceses) e cinco navios brasileiros. No domingo, mais seis navios foram mobilizados para ajudar nas buscas, já que grande parte dos corpos recolhidos hoje foi avistada por fragatas presentes no local. Espera-se, para quarta-feira, a chegada de um submarino nuclear francês que ajudará nas buscas, o Emaraude.
O avião Airbus A330 da Air France fazia o voo 447 (Rio-Paris), e desapareceu na madrugada da segunda-feira passada (1 de Junho). Levava 228 pessoas a bordo, entre as quais oito crianças e 12 tripulantes. Foi localizado pela última vez pelos radares da ilha Fernando de Noronha. Nos últimos quatro minutos em que deu sinal, o sistema da aeronave enviou 24 mensagens reportando erros. Está aberto um inquérito, a cargo das autoridades francesas, para encontrar uma explicação para a tragédia.
Inquérito centrado nos erros das velocidades medidas
Só neste fim-de-semana é que surgiram informações coincidentes no inquérito ao desaparecimento do voo AF-447. Essas informações colocam em causa os sistemas de medição de velocidades dos aparelhos Airbus A330.
O secretário de Estado dos Transportes francês, Dominique Bussereau, procurou travar a especulação à volta dos sistemas destas aeronaves, mais precisamente nos chamados tubos de Pitot, os instrumentos que servem para calcular a velocidade a que os aviões voam.
"Neste momento, não podemos verdadeiramente privilegiar nenhuma hipótese", declarou o secretário de Estado à rádio RTL.
"Houve situações em Airbus, e provavelmente noutras aeronaves, em que estes sensores congelaram e não indicavam a velocidade correcta por estarem em zonas muito húmidas ou turbulentas", acrescentou.
Bussureau argumentou que, tendo em conta estes problemas com os sensores, os pilotos podem tomar decisões baseadas numa velocidade mal medida.
Se os sensores indicarem que o avião voa a uma velocidade menor do que aquela que realmente se verifica, isso pode fazer com que a velocidade do aparelho se aproxime da velocidade do som, para a qual os seus materiais não estão preparados. Isto poderia explicar uma desintegração do avião em pleno voo.
Buscas podem ajudar a perceber o que se passou
A recuperação dos destroços do aparelho deverá ajudar nas buscas, uma vez que já há outras informações relevantes sobre o que terá acontecido durante o voo.
Entre essas informações estão as 24 mensagens de anomalias técnicas que o aparelho enviou nos últimos quatro minutos em que deu sinal. Uma dessas informações, que a Folha Online ontem traduziu, indicava que o leme do avião (a asa vertical que existe na sua cauda e que permite alterações da rota) se partiu.
Nos últimos dias, o Gabinete de Inquéritos e Análises (BEA), a instituição francesa responsável por apurar as causas do acidente, constatou várias avarias nos sistemas de medição de velocidades em aeronaves Airbus A330.
Na sequência dessa descoberta, o fabricante Airbus começou um programa de substituição dessas peças nos aviões. A Air France disse na noite passada que acelerou o processo de substituição destes sensores nas suas aeronaves.
Segundo o semanário francês ‘Journal du Dimanche’ (JDD), desde 1996 que estes problemas nos tubos de Pitot se verificam. O jornal citou um documento técnico, datado de Novembro de 1996, que indica que os parâmetros medidos pelos sensores "podem apresentar erros severos mesmo se o sistema que descongela os sensores funcionar correctamente".
Os valores transmitidos podem apresentar esses problemas se o avião se encontrar entre nuvens "cúmulo-nimbo", que produzem grande turbulência e podem ter 18 quilómetros de altitude, "particularmente na zona de convergência intertropical", onde o AF-447 se encontrava na altura do seu desaparecimento.
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AIR FRANCE, VÔO 447
As tragédias da mídia
Por Fernando Branquinho em 2/6/2009
Reproduzido do blog do autor, 2/6/2009
Deixei a TV ligada na segunda-feira (1/6) o dia todo para acompanhar o sumiço do vôo 447 da Air France, alternando Globonews, CNN, TV5Monde, Bandnews e Recordnews. Na falta de novidades, qualquer coisa servia para mostrar atualização. Numa delas, depois de repetir a vinheta por horas, acrescentaram o prefixo da aeronave como relevante. Por volta do meio-dia, ouvi de relance, na TV francesa, falarem em 60 brasileiros. Às 3 da tarde a TV Globo mostrou o relações públicas da Air France no Brasil falando em percentuais de nacionalidades, cabendo aos canais de mídia fazerem as contas chegando a cerca de 80 brasileiros. Depois, o número passou a oscilar entre 57 e 58 dependendo da fonte (ANAC e Air France).
Ainda falando em cálculo, na CNN leram a nota da Aeronáutica brasileira e os comentaristas aparentavam bater cabeças com fusos horários. Já no Brasil Urgente, de José Luiz Datena, na Band, a coisa estava risível. Em poucos minutos, vi passarem imagens de um grande aeroporto ao fundo, enquanto o apresentador falava que eram imagens do aeroporto de Fernando de Noronha. Depois, perceberam a mancada e ele retificou. Depois falou que havia caças na busca aos destroços, e que o tempo que levariam de Natal a Noronha era praticamente nenhum, porque eram supersônicos. Acho que confundiu com a nave de Startrek, que chega à velocidade da luz.
Logo em seguida um repórter retificou que, na verdade, não havia aviões caças na busca. Depois que o Datena disse que o avião da Air France estava voando a 11 mil km de altitude, mudei de canal, porque ele devia estar falando de um vôo espacial, já que a Estação Espacial Internacional orbita a 360 km de altitude. Confundiu metros com quilômetros.
Normas brasileiras
A mídia convocou para entrevistas pilotos, peritos e engenheiros, que davam as informações com as devidas ressalvas dada a falta de dados, mas depois, na boca dos repórteres, viravam "verdades" fora de contexto. A idéia do raio ter causado a pane elétrica e a queda, apesar de muito remota pela redundância dos sistemas e pelo efeito de Gaiola de Faraday (que tem campo elétrico nulo no seu interior e cargas uniformemente distribuídas no exterior, blindando a parte interna de choques ao ser energizada), foi colocada pelos especialistas como quase impossível, mas povoou, com ilustrações e filmes, os noticiários quase como uma explicação final.
Estranhamente, uma hipótese de explosão por bomba ou qualquer outra causa, foi rechaçada categoricamente pela mídia brasileira, mas vem sendo levantada na França. Ninguém fala nisso por aqui. Seria uma dessas possibilidades que fazem um sistema automático disparar alertas, mas impedem os pilotos de fazerem procedimentos de emergência ou comunicarem o problema. Essa possibilidade eximiria de responsabilidades dois ícones do capitalismo francês, a Air France e a Airbus, fabricante do avião.
Do outro lado do Atlântico, o jornal americano Washington Post tem uma matéria onde se pergunta: "Como pode um jato tão moderno simplesmente desaparecer?" Claro que isso não deve ter muito a ver com o fato de as concorrentes da Airbus – Boeing e Douglas – serem americanas.
A imagem da Air France ficou positiva na assistência aos parentes, tirando-os da exposição pública no momento de dor, mas deixou a mídia sem as imagens fortes de choros e revoltas vistas na época do "caos aéreo". E também não permitiu a exploração política – afinal, não havia ninguém esculachando as autoridades brasileiras. Foi aí que vi na Globonews a entrevista de um professor descendo a ripa na Agência Nacional de Aviação Civil (ANAC), porque não apareceu no episódio, porque estaria omissa, porque nenhum titular apareceu para dar declarações, que não tinha lista dos passageiros até aquela hora etc.
Segundo a imprensa, as autoridades estavam cumprindo normas brasileiras, que exigem o contato com todas as famílias antes da divulgação. Esse vôo era uma Babel: 31 nacionalidades presentes. Devem estar até agora procurando contatos.
Idéia subliminar
No fim da tarde, a Globonews mostrou Lula em El Salvador. Estranhei a insistência na abordagem. Lula disse o que era cabível: falou com Sarkozy, que também não sabia o que dizer, que acreditava em Deus e que até o fim esperaria uma boa notícia, que estava solidário com a dor das famílias etc. Isso em poucos segundos. Aí o assunto acabou, e os repórteres pareciam querer mais. E Lula repetia. E a matéria não acabava. Então alguém perguntou se ele decretaria luto. Ele disse que a decretação legalmente competia ao vice, José Alencar, que estava em exercício na presidência no Brasil, e que já estava fazendo de tudo para as buscas, que o representaria junto às famílias etc. Ficou a sensação que esperavam ouvir dele que abandonaria toda a missão na América Central e voltaria para ver as famílias.
A idéia de mostrar Lula como omisso progrediu nas empresas Globo. O jornal O Globo de terça-feira (2/6) mostra a seguinte manchete na sua capa : "Sarkozy vai e Lula manda vice". O texto esclarece o assunto, mas quem lê apenas o título fica com a impressão de pouco-caso do presidente, porque o da França foi lá consolar as famílias, e o do Brasil... mandou o vice.
No caderno especial, página 9, outra manchete, esta em destaque: "Sarkozy consola parentes; Lula estava longe". Novamente a indução: Lula estava longe, ou seja, não se envolveu, é a idéia subliminar. A "desumanidade" do presidente fica explicitada, na mesma página, ao se destacar uma mensagem da coluna "O leitor opina", que normalmente fica no primeiro caderno do jornal, e que diz:
"O presidente Lula deveria ter interrompido sua agenda para dar suporte e acompanhar de perto essa tragédia, mas preferiu seguir com a sua agenda. Enquanto isso, o presidente francês estava no aeroporto Charles de Gaulle o mais rápido que pôde."
Xeque-mate!



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